Uma coisa que me incomoda quando estou em países muçulmanos é ver as mulheres de burka. Sei que é uma questão cultural, que não tenho como entender, já que não fui criada nos mesmos parâmetros, mas não consigo aceitar quando vejo um casal, andando debaixo de um sol escaldante, e noto que o homem usa regatas, bermudas e sandálias e a mulher está com aquele lençol negro da cabeça aos pés, vendo o mundo por trás de uma redinha. Dá vontade de ir lá e puxar a burka só pra refrescar a coitada.
O hijab eu entendo melhor. Atravessei a Ilha de Java (Indonésia) de trem e minha companheira de assento usava hijab – aquele tipo de lenço que cobre a cabeça, pescoço e ombros. A gente às vezes pensa que não tem pré-conceitos formados, mas temos. Todos os temos. Escrevi “pré-conceitos” ao invés de “preconceitos” para enfatizar melhor a ideia que formamos sobre algo que não tivemos ainda a oportunidade de conhecer e, no meu caso, a primeira coisa que pensei foi, “Vou passar horas ao lado dessa mulher tão diferente de mim...”. E daí, Telma? Se você só quiser estar com seus pares, não saia de casa! Eu estava do outro lado do planeta, o que podia esperar?
Logo que sentei, a mulher sorriu para mim e retribuí com um sorriso amarelo silencioso, sem saber como dizer “Boa tarde!”. Sabia que seria selamat (bom/boa) qualquer coisa – sempre confundo pagi (manhã), siang (tarde) e sore (noite) – e preferi não dizer nada. Ela, certamente sabia que eu era estrangeira (daaahh) e virou pra mim, falando um Inglês perfeito, e disse, “Você não está bem, mas a viagem vai afastar suas amarguras. Você está muito cansada agora. Quando descansar vai conseguir ver tudo por outro ângulo e tirar uma lição de tudo que aconteceu.”.
Meu queixo literalmente caiu. Hoje, com mais isenção, imagino que ela tenha dito aquilo porque eu era claramente uma turista “espiritual”. Branquela, mochileira solitária, indo para Yogyakarta – onde há os templos Borobudur (o maior monumento budista conhecido) e Prambanan (o maior centro religioso hindu dedicado à deusa Shiva na Indonésia), ambos patrimônios da humanidade segundo a Unesco – eu era o estereótipo da mulher insatisfeita que vai a esses lugares para encontrar a si mesma. Minha companheira de viagem, Alima, cujo nome ironicamente significa “mulher sábia”, teve a sensibilidade de ler isso em mim, mas na hora eu achei aquilo o máximo.
Em menos de duas horas já éramos grandes amigas e ela, de repente me disse que EU precisava dormir. Chamou o comissário de bordo (trem na Indonésia tem serviço de bordo, sim) e “alugou” um cobertor para mim. Nem sei quanto tempo dormi, mas acordei com Alima me convidando para jantar. Quando chegamos em Yogya, já de madrugada, sua filha a esperava e me deu carona até o hotel. Pouco depois de me acomodar no quarto, bateram à porta: Alima me enviara um prato típico muçulmano (que não me lembro mais o nome) para ser a minha ceia.
Pois bem, todo esse papo sobre Alima só para falar sobre a beleza das mulheres muçulmanas. Ela me disse que cobrir o corpo era uma opção que demonstrava, principalmente, seu respeito e consideração ao marido e à família que têm a exclusividade de vê-la “desnuda”, ou seja, de cabelos e braços à mostra. Em casa, as mulheres muçulmanas apresentam-se produzidíssimas com maquiagens e penteados elaborados, e mesmo aquelas que usam burka, sob os panos têm as unhas manicuradas e os dedos cheios de anéis. Aquele marido todo fresquinho com sua bermuda deve trabalhar como um cavalo para manter os luxos da(s) esposa(s).
Encontrei um vídeo cujo título é تقنيات تدليك ذاتي لمكافحة التجاعيد, mas ninguém precisa falar Árabe para entender o passo a passo da massagem contra as rugas feitas pela modelo da Vichy-Líbano. É só acompanhar e ficar linda como as princesas das mil e uma noites :-))


23:00
Fessora

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