Até meus 38 anos eu me orgulhava de ter olhos de lince. Lia bulas de remédios, enfiava linha na agulha, enfim, fazia tudo aquilo que não faço mais sem óculos. Quando a vista começou a falhar e fui me consultar com um oftalmologista, quase desmaiei ao me descobrir présbita e – pior – saber que, a partir daí, eu teria que usar “óculos senis”! Sim, foi exatamente esse o termo que o médico usou e eu não tinha nem chegado aos 40...
A presbiopia ou “vista cansada”, para a maioria das pessoas, inicia após os 40 anos. Ocorre por uma ineficiência do sistema de acomodação da visão para perto, levada pela perda da elasticidade do cristalino (lente natural do olho). Ler mensagens no celular, o jornal, a validade de um produto tornam-se tarefas extremamente difíceis ou mesmo, impossíveis.
Por alguns anos me desentendi com os óculos. Usava-os pendurados numa correntinha e até ganhei de presente um broche, em forma de óculos, com uma alça inferior para pendurar meus “óculos senis” (rss). Como enxergava bem para longe, era um tal de tira e põe os óculos durante as aulas que me incomodava demais, principalmente por causa do giz. Verdade! Enquanto os óculos estavam pendurados, eu escrevia e apagava o quadro negro (agora é branco e uso caneta marcadora, mas à época não era assim) e o giz se depositava sobre as lentes. Quando precisava ler alguma coisa e colocava os óculos, enxergava menos ainda com as lentes totalmente cobertas de pó de giz e precisava ter à mão uma flanelinha que também ficava logo suja já que meus dedos também estavam cheios de giz... Presbiopia deveria ser razão para aposentadoria de professores!
A rapidez com que a presbiopia se estabelece varia de uma pessoa para a outra, em função da quantidade e tipo de grau que use para longe, e demorei um tempo até precisar de correção também para longe. Tentei óculos multifocais, mas isso me faria usar óculos 24/7 e eu literalmente ODEIO óculos! Preferi ter dois pares: um para ler e outro para dirigir e a partir daí o troca-troca foi piorando, sem contar com o problema da visão intermediária como, por exemplo, a distância que estou agora da tela do computador.
Um belo – belíssimo – dia, conversando com colegas, alguém comentou sobre um novo método para o uso de lentes de contato corretivas chamado “monovisão”. O princípio era simples: um olho era corrigido para perto e o outro para longe. O cérebro se adaptaria rapidamente e você deixaria de usar dois óculos. Tornando mais curta essa longa história, há quase dez anos uso lentes de contato. O médico escolheu o olho esquerdo para ser o olho “dominante”, ou seja, corrigido para distâncias maiores, pelo fato de eu dirigir e precisar do olho esquerdo para usar o espelho retrovisor. Obviamente, o direito é corrigido para perto e os dois juntos fazem a visão intermediária. Bem, não sou especialista e posso falar alguma besteira, então é melhor oferecer o artigo escrito pelo Dr. Paulo Ricardo de Oliveira, médico oftalmologista do Hospital de Olhos de Goiás e Doutor em Oftalmologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Só para concluir meu depoimento, também lutei um tempinho com as lentes e perdi um sem número delas pelo banheiro até me acostumar a colocá-las, mas depois de colocadas, a minha adaptação ao sistema de correção foi imediata. As lentes foram minha carta de alforria à escravidão dos óculos :-
Correção da presbiopia: monovisão versus lentes de contato bifocais e multifocais
Introdução
Cada vez mais pessoas présbitas se interessam por lentes de contato (LC). Na atualidade as pessoas maiores de 40 anos estão mais ativas profissionalmente, praticam esportes e têm maior preocupação estética. Muitos usuários estão tornando-se présbitas e querem continuar usando lentes de contato. Por outro lado, pessoas que nunca usaram óculos, ao chegarem à presbiopia, querem outra opção além dos óculos. Esse aumento da motivação aliado ao progresso dos materiais e desenhos das lentes de contato estão criando um novo e promissor campo da contactologia, com opções como monovisão, monovisão modificada, lentes bifocais e multifocais.
Monovisão
No caso da monovisão, preferencialmente, o olho dominante é corrigido para distância e o olho não dominante para perto. Ao fazer a monovisão modificada, o olho dominante é corrigido para distância e uma lente de contato bifocal ou multifocal é adaptada no olho não dominante. Quando o usuário é emétrope, o olho dominante é deixado sem correção e no não dominante é adaptado uma lente para perto ou uma bifocal.
Monovisão, na verdade, é um nome inadequado, porque apesar do paciente ficar com a visão central do olho corrigido para perto parcialmente turva, ele tem boa visão periférica, conservando uma binocularidade importante. Com ambos os olhos o usuário, geralmente, tem boa acuidade visual para longe e perto, uma esteopsia aceitável e um melhor campo de visão do que com os óculos.
Lentes de contato bifocais e multifocais
As lentes bifocais são principalmente de dois tipos, de visão simultânea e visão alternante. Nas de visão simultânea, a área com a correção para longe e para perto é colocada simultaneamente à frente da pupila do usuário. Assim, a lente precisa ficar bem centralizada e ter pouca mobilidade, o que faz com que esse sistema funcione melhor com as lentes hidrofílicas. No caso das lentes de visão alternante, os segmentos com as correções para longe e para perto são colocados, alternadamente, à frente da pupila, o que requer uma maior mobilidade da lente, fazendo com que esse sistema funcione de forma mais eficiente, com as lentes de contato rígidas.
As LC de visão simultânea, mais conhecidas, são as concêntricas, as asféricas e as difrativas. São exemplos das concêntricas a Simulvue, que é de uso convencional, a Acuvue Bifocal e a Focus Progressive, que são descartáveis. A Simulvue possui uma área central com a correção para perto e perifericamente a mesma, a área com a correção para distância. Ela tem ainda a vantagem de ter esta área central de diâmetros diferentes, possibilitando a adaptação de uma lente com a área menor no olho dominante e outra com a área maior no olho não dominante, dando mais conforto ao usuário. A Acuvue Bifocal apresenta várias áreas com correção para perto e para longe, que devem ficar à frente da pupila e por isso, às vezes, a visão para distância fica parcialmente embaçada. A Focus Progressive, que tem curvaturas asféricas e funciona como multifocal, tem um índice de sucesso semelhante ao da Acuvue Bifocal. As asféricas, devido à limitação de sua adição, são pouco usadas. As difrativas, cujo exemplo mais conhecido é a Eclelon, têm como característica principal, a presença de anéis concêntricos na sua face posterior, que funcionam como obstáculos à luz e proporcionam adição de até 2,0 dioptrias. Essas lentes são produzidas com curvatura única e a sua adaptação não depende do tamanho da pupila.
As LC de visão alternante são principalmente rígidas, necessitam de uma mobilidade maior e dependem da posição da borda da pálpebra inferior. É necessário que a borda da pálpebra esteja em nível do limbo corneano inferior ou ligeiramente acima, para manter a lente de contato numa posição mais superior, quando o paciente olha para baixo, de modo que o segmento com a correção para perto fique à frente da pupila, possibilitando a leitura e execução de trabalho manuais.
Monovisão versus lentes bifocais e multifocais
Os bons candidatos para monovisão são aqueles com 50 anos de idade ou menos, com adição para perto de até 2,00 dioptrias esféricas, já usuários de lentes de contato e que têm alta motivação. Entretanto, se o paciente começa a utilizar monovisão antes dos 50 anos de idade, muitas vezes ele consegue continuar usando-a além dos 50 anos, possivelmente devido a uma adaptação gradativa à anisometropia. Outro fato interessante é a conclusão de uma pesquisa realizada pela Unicamp, segundo a qual aproximadamente 60% das pessoas que se adaptam à monovisão toleram muito bem a correção para perto, tanto no olho dominante quanto no não dominante. Isso explica a boa possibilidade de sucesso quando se adota a conduta de corrigir para longe sempre o olho esquerdo, independentemente da dominância, com o objetivo de dar mais segurança às pessoas que dirigem e que cruzam com outros veículos, sempre do lado esquerdo.
Um fator fundamental para o sucesso da correção da presbiopia, tanto com monovisão quanto lentes bifocais é a motivação do candidato. Pessoas pouco motivadas ou que são detalhistas, exigentes e que querem enxergar com as lentes igual ou melhor do que com óculos são candidatas com poucas possibilidades de sucesso. O mesmo ancontece com as maiores de 50 anos, que nunca usaram lentes de contato e tentam fazer monovisão. Brooks e cols., 1996, mostraram que uma dioptria de anisometropia faz com que a esteropsia seja reduzida para além dos 50 segundos de arco, com duas dioptrias a estereopsia não chega a 100 segundos e com três dioptrias ela fica em torno de 1.000 segundos de arco. Embora existam exceções, com algumas pessoas apresentando uma menor redução da estereopsia, esses dados mostram porque os maiores de 50 anos, portanto, com adição de duas ou mais dioptrias, têm mais dificuldades para se adaptarem à monovisão.
As LC bifocais podem ser adaptadas em présbitas de qualquer idade. As concêntricas, muitas vezes, requerem um diâmetro pupilar de pelo menos 4 mm, à iluminação ambiente e todas devem ter mobilidade pequena, para assegurar uma visão mais estável. As lentes difrativas, cujo exemplo mais conhecido é o da Echelon, não dependem do tamanho da pupila e são confortáveis. Porém, seus usuários às vezes se queixam de percepção de halos, fantasmas e efeito tridimencional, além da perda de sensibilidade a contraste.
Combinações possíveis
O advento das lentes descartáveis veio facilitar consideravelmente o trabalho do oftalmologista, possibilitando a realização de muitos testes e mesmo a oferta gratuita de lentes ao candidato a usuário, permitindo que ele as use no exercício de suas atividades rotineiras, evitando o risco de insucesso após já ter gasto dinheiro na aquisição de suas lentes. Assim, nos pacientes com 50 anos ou menos, pode ser tentada a monovisão, lentes bifocais ou monovisão modificada. Se o paciente for emétrope e tiver até 50 anos, é possível corrigir somente um dos olhos para perto, com uma lente monofocal, deixando o outro sem correção; quando maior de 50 anos ou com adição acima de 2,0 dioptrias, pode-se fazer essa correção utilizando uma LC bifocal ou multifocal. Nos casos em que a lente testata possui adição máxima de 2,5 dioptrias e a adição requerida pelo paciente é ainda mais alta, é possivel obter sucesso hipercorrigindo, para distância, o olho não dominante, nos hipermétropes e hipocorrigindo nos míopes.
Cuidados especiais
Alguns cuidados podem evitar a perda de tempo com determinados candidatos ou fazer com que entendam as dificuldades iniciais, facilitando o trabalho do médico. Os principais são:
1. Avaliar a possibilidade de sucesso, considerando especialmente a personalidade do candidato;
2. Conscientizar sobre as limitações desse tipo de correção, sem entretanto, desanimar o paciente, mostrando também as vantagens;
3. Avisar que poderão ser necessários dias ou semanas de uso das lentes para a obtenção do melhor desempenho e conforto;
4. Identificar o olho dominante;
5. Fazer testes valorizando as características de cada caso.
Conclusão
Concluindo, é possível afirmar que não se pode ter uma forte preferência por monovisão ou por lentes de contato bifocais ou multifocais, mas que se deve utilizar ambos os métodos e muitas vezes uma associação dos dois, como a monovisão modificada.
Fonte: http://www.moreirajr.com.br/


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Fessora

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